terça-feira, 26 de maio de 2015

Professor: uma nobre profissão que anda fazendo vítimas

Em Rio Claro, um professor agredido por um aluno, repensa sua tarefa de educar e se vale a pena prosseguir nela

No mês passado, o G1 divulgou a notícia de que um professor de Rio Claro, interior de São Paulo, foi agredido por um aluno, com um bloco de concreto e quebrou seu nariz.
Após essa ocorrência, a vítima repensou a respeito da profissão que escolheu, visto que não há nenhuma segurança ao exercê-la, diante da violência ali enfrentada, que o faz ficar totalmente suscetível.
Ao observar que o salário recebido também não justifica esta vulnerabilidade, Walter da Rocha e Silva, o professor rio-clarense agredido,  acabou por anunciar que deixaria o cargo, pois, independente da escola para a qual se transferisse, o problema persistiria.
“Quando tenho aula, já entro na sala com medo. Todos da escola sabem como o garoto é perigoso”, confessa o professor, se referindo ao aluno agressor, de apenas 14 anos.
Antigamente, ser professor era um sacerdócio, um ofício nobre e gratificante.
Ter um professor diante da classe era algo do qual os alunos se orgulhavam, tanto que levavam a maçã de presente, se esforçavam para tirar as melhores notas e queriam a todo custo agradar ao mestre.
Como diz a tradução da música “Ao Mestre com Carinho”, “Para alcançar as estrelas não vai ser fácil mas se eu te pedir você me ensina como descobrir”, muitos alunos agradecidos viam na imagem do professor um ser capaz de ajudá-los a atingir qualquer objetivo e o respeitavam.
Contudo, no final de agosto de 2014, uma pesquisa envolvendo 100 mil docentes em 34 países apontou que 12,5% dos brasileiros são agredidos ou intimidados uma vez por semana dentro do ambiente escolar, o que coloca o Brasil na liderança mundial de agressão a professores.
Beatriz Virgínia Castilho Pinto, atualmente exercendo a profissão de advogada, foi professora de literatura brasileira por muitos anos.
“Nunca sofri nenhum tipo de agressão, nem verbal; talvez seja porque eu sempre lecionei para o ensino médio, em que os alunos já têm uma certa maturidade”, pondera Beatriz, que é uma exceção neste meio.
Mas por que as crianças e jovens de hoje mudaram de comportamento de modo tão drástico, sendo que, com o avanço natural da tecnologia, há tantas facilidades?
Marília Dória Trafane, psicóloga, coloca a visão de que a agressão ao professor não é algo isolado, mas fruto de uma relação violenta que se estabelece entre o corpo discente, entre alunos e professores, entre o sistema educacional e os estudantes ou mesmo entre a escola e a comunidade.
“A escola está inserida numa sociedade que identifica a violência como forma de resolver conflitos”, justifica Marília.
A psicóloga analisa ainda que os conflitos nas instituições de ensino são agravados pela “terceirização” da educação dos estudantes.
“A família, tradicionalmente responsável pela formação moral dos alunos, já não dá conta desse processo”, enfatiza.
A psicóloga analisa que os professores reclamam da falta de respeito dos alunos, que não veem mais neles uma figura de autoridade e, por outro lado, nenhum aluno quer ser professor.
“Se é verdade que se pode constatar a existência de um maior nível de agressividade nas crianças, também o observamos nos jovens e adultos. As crianças tendem a reproduzir os comportamentos observados em suas figuras de referência (pais, professores) e, se virem frequentemente os pais a discutirem entre si ou a reprimirem com agressões verbais e físicas, é natural que também elas adaptem posturas mais agressivas nos diferentes contextos de interação”, esclarece Marília.
A psicóloga aponta outro possível fator para esta mudança de comportamento: as crianças da sociedade ocidental passam um grande número de horas diárias em frente à televisão/computador/ videojogos, atividades que promovem a agressividade.
“É importante que os pais acompanhem e selecionem a programação, ou jogos - de modo a poderem verificar o nível de agressividade contido nos mesmos, e expliquem ou reformulem as situações a que as crianças assistem, ajudando-as, assim, a desenvolver a capacidade de lidar com situações tensas ou agressivas”, sugere a psicóloga.
Marília frisa que os pais que pretendem capacitar seus filhos para a melhor gestão das emoções sabem que não são os brinquedos ou chocolates que irão ajudar os seus filhos, mas sim, a sua atenção, disponibilidade e afeto, bem como firmeza quanto aos limites, explicando o porquê dos princípios, partilhando as suas próprias histórias e sentimentos, transmitindo valores.
“É muito difícil para muitos pais reconhecerem algo negativo na conduta de seus filhos, por isso é importante, quando se detecta o caso de agressão a professores, que eles trabalhem diretamente com a escola para resolver o problema, de forma imediata,  pois a má conduta, se não corrigida, pode crescer como uma bola de neve”, esclarece.
Algumas dicas que Marília deixa são:
1- Investigue as razões do seu filho ser um agressor.
2- Fale com os professores, peça-lhes ajuda e escute todas as críticas sobre seu filho.
3- Aproxime-se mais dos amigos do seu filho e observe que atividades realizam.
4- Estabeleça um canal de comunicação e confiança com seu filho, pois as crianças precisam sentir que seus pais as escutam.
5- Tome cuidado para não culpar aos demais pela má conduta do seu filho.
6- Colabore com o colégio dando seguimento ao caso e registrando as melhoras.
7- Canalize a conduta agressiva de seu filho a algum esporte que ele se identifique.
8 - Deixe claro ao seu filho que a conduta de agressão não é permitida na família e o que ocorrerá se a agressão continuar.
9 - Ensine-o a praticar boas condutas.
10- Não ignore a situação. Mantenha a calma e procure saber como ajudar ao seu filho.
11- Demonstre ao seu filho que continua amando-o tanto quanto antes, mas que desaprova seu comportamento.
12- Estimule-o para que reconheça seu erro e peça perdão à vítima. Elogie suas boas ações.
 A relação escola-família é de suma importância.
Marília finaliza que, para trabalhar o bom convívio do grupo, algumas opções a praticar são orientar os alunos a informar quanto à ocorrência de qualquer comportamento agressivo; não estimular a criança a revidar atitudes agressivas com atos violentos; dialogar com as crianças sobre as noções de certo e errado e proporcionar brincadeiras onde há contato físico.

Por Daniela Prado



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