Em Rio Claro, um
professor agredido por um aluno, repensa sua tarefa de educar e se vale a pena
prosseguir nela
No mês passado, o G1 divulgou a notícia de que um professor
de Rio Claro, interior de São Paulo, foi agredido por um aluno, com um bloco de
concreto e quebrou seu nariz.
Após essa ocorrência, a vítima repensou a respeito da
profissão que escolheu, visto que não há nenhuma segurança ao exercê-la, diante
da violência ali enfrentada, que o faz ficar totalmente suscetível.
Ao observar que o salário recebido também não justifica esta
vulnerabilidade, Walter da Rocha e Silva, o professor rio-clarense
agredido, acabou por anunciar que
deixaria o cargo, pois, independente da escola para a qual se transferisse, o
problema persistiria.
“Quando tenho aula, já entro na sala com medo. Todos da
escola sabem como o garoto é perigoso”, confessa o professor, se referindo ao
aluno agressor, de apenas 14 anos.
Antigamente, ser professor era um sacerdócio, um ofício
nobre e gratificante.
Ter um professor diante da classe era algo do qual os alunos
se orgulhavam, tanto que levavam a maçã de presente, se esforçavam para tirar
as melhores notas e queriam a todo custo agradar ao mestre.
Como diz a tradução da música “Ao Mestre com Carinho”, “Para
alcançar as estrelas não vai ser fácil mas se eu te pedir você me ensina como
descobrir”, muitos alunos agradecidos viam na imagem do professor um ser capaz
de ajudá-los a atingir qualquer objetivo e o respeitavam.
Contudo, no final de agosto de 2014, uma pesquisa envolvendo
100 mil docentes em 34 países apontou que 12,5% dos brasileiros são agredidos
ou intimidados uma vez por semana dentro do ambiente escolar, o que coloca o
Brasil na liderança mundial de agressão a professores.
Beatriz Virgínia Castilho Pinto, atualmente exercendo a
profissão de advogada, foi professora de literatura brasileira por muitos anos.
“Nunca sofri nenhum tipo de agressão, nem verbal; talvez
seja porque eu sempre lecionei para o ensino médio, em que os alunos já têm uma
certa maturidade”, pondera Beatriz, que é uma exceção neste meio.
Mas por que as crianças e jovens de hoje mudaram de
comportamento de modo tão drástico, sendo que, com o avanço natural da tecnologia,
há tantas facilidades?
Marília Dória Trafane, psicóloga, coloca a visão de que a agressão ao professor não
é algo isolado, mas fruto de uma relação violenta que se
estabelece entre o corpo discente, entre alunos e professores, entre
o sistema educacional e os estudantes ou mesmo entre a escola e
a comunidade.
“A
escola está inserida numa sociedade que identifica a violência como forma
de resolver conflitos”, justifica Marília.
A
psicóloga analisa ainda que os conflitos nas instituições de ensino são agravados
pela “terceirização” da educação dos estudantes.
“A família,
tradicionalmente responsável pela formação moral dos alunos, já não dá
conta desse processo”, enfatiza.
A psicóloga analisa que os professores reclamam da
falta de respeito dos alunos, que não veem mais neles uma figura de
autoridade e, por outro lado, nenhum aluno quer ser professor.
“Se é verdade que se pode constatar a existência de um
maior nível de agressividade nas crianças, também o observamos nos jovens e
adultos. As crianças tendem a reproduzir os comportamentos observados em suas
figuras de referência (pais, professores) e, se virem frequentemente os pais a
discutirem entre si ou a reprimirem com agressões verbais e físicas, é natural
que também elas adaptem posturas mais agressivas nos diferentes contextos de
interação”, esclarece Marília.
A psicóloga aponta outro possível fator para esta
mudança de comportamento: as crianças da sociedade ocidental passam um grande
número de horas diárias em frente à televisão/computador/ videojogos, atividades
que promovem a agressividade.
“É importante que os pais acompanhem e selecionem a
programação, ou jogos - de modo a poderem verificar o nível de agressividade
contido nos mesmos, e expliquem ou reformulem as situações a que as crianças assistem,
ajudando-as, assim, a desenvolver a capacidade de lidar com situações tensas ou
agressivas”, sugere a psicóloga.
Marília frisa que os pais que pretendem capacitar seus
filhos para a melhor gestão das emoções sabem que não são os brinquedos ou chocolates
que irão ajudar os seus filhos, mas sim, a sua atenção, disponibilidade e
afeto, bem como firmeza quanto aos limites, explicando o porquê dos princípios,
partilhando as suas próprias histórias e sentimentos, transmitindo valores.
“É
muito difícil para muitos pais reconhecerem algo negativo na conduta de seus
filhos, por isso é importante, quando se detecta o caso de agressão a
professores, que eles trabalhem diretamente com a escola para resolver o
problema, de forma imediata, pois a má
conduta, se não corrigida, pode crescer como uma bola de neve”, esclarece.
1-
Investigue as razões do seu filho ser um agressor.
2-
Fale com os professores, peça-lhes ajuda e escute todas as críticas sobre seu
filho.
3-
Aproxime-se mais dos amigos do seu filho e observe que atividades realizam.
4-
Estabeleça um canal de comunicação e confiança com seu filho, pois as crianças
precisam sentir que seus pais as escutam.
5-
Tome cuidado para não culpar aos demais pela má conduta do seu filho.
6-
Colabore com o colégio dando seguimento ao caso e registrando as melhoras.
7-
Canalize a conduta agressiva de seu filho a algum esporte que ele se
identifique.
8 -
Deixe claro ao seu filho que a conduta de agressão não é permitida na família e
o que ocorrerá se a agressão continuar.
9 -
Ensine-o a praticar boas condutas.
10-
Não ignore a situação. Mantenha a calma e procure saber como ajudar ao seu
filho.
11-
Demonstre ao seu filho que continua amando-o tanto quanto antes, mas que
desaprova seu comportamento.
12-
Estimule-o para que reconheça seu erro e peça perdão à vítima. Elogie suas boas
ações.
A relação escola-família é de suma importância.
Marília finaliza que, para trabalhar o bom convívio do
grupo, algumas opções a praticar são orientar os alunos a informar quanto à
ocorrência de qualquer comportamento agressivo; não estimular a criança a
revidar atitudes agressivas com atos violentos; dialogar com as crianças sobre
as noções de certo e errado e proporcionar brincadeiras onde há contato físico.
Por Daniela Prado
Por Daniela Prado

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