terça-feira, 1 de setembro de 2015

Manifestantes chocam ao pedir a volta da Ditadura

A justificativa é que no governo militar o Brasil tinha mais ordem

Nas manifestações contra o governo da presidente Dilma, algumas faixas chamaram a atenção, de modo drástico, com palavras que pediam a volta da Ditadura Militar.
Em São João da Boa Vista, duas advogadas —que pediram para não revelar o nome— justificaram que, no período militar, havia mais ordem  no Brasil, mais controle e menos violência e corrupção. Embora tentem encontrar uma justificativa para a intervenção militar, há de se considerar dois fatos: nem de longe o país era menos corrupto na época militar; e em notas e entrevistas oficiais, as próprias forças militares expressaram total desinteresse em adotar postura sequer parecida com a Ditadura.
Outro ponto que as pessoas não refletem antes de se manifestar —tanto pelo ato de ir às ruas, como no de pedir a volta do governo militar— é que, se hoje a Ditadura voltasse, certamente eles não poderiam usar de manifestações públicas para protestar.  Se as fizessem, terminariam nas salas de tortura, nas prisões ou mesmo acabariam mortos.
A própria presidente Dilma, embora alguns aleguem que era uma guerrilheira, foi uma das vítimas dos militares, quando tentava demonstrar seu descontentamento com o sistema vigente na época e sofreu as torturas dessa “manifestação contrária” ao regime.
O AI-5, que dava plenos poderes aos governantes e, segundo Audálio Dantas diz em seu livro “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, “fez o país mergulhar de vez na escuridão do arbítrio”, colocava ordem, mas uma ordem imposta e se contrariada, a violência vinha como consequência.
Mas os manifestantes, aparentemente, não se importaram em buscar informações concretas antes de sair espalhando cartazes pedindo por intervenção militar. A preocupação maior era tirar “selfs” para postar nas redes sociais.
Eduardo Anizelli/Folhapress
Cristina Sarraf, uma professora aposentada, defende Dilma, não como presidente mas como cidadã. “Estes jovens que estão indo às ruas... para protestar sobre o quê? O que eles têm feito de concreto para melhorar o país em que vivem? Nada. Dilma, na idade deles, estava sendo torturada, lutando para mudar a realidade do Brasil, que ela considerava abusiva, pois todos os mandos e desmandos vinham lá de cima. Ela não achava justo ter que apenas acatar”, diz Cristina.
Fica difícil levar a sério uma manifestação que pede pela volta da ditadura e por impeachment sem nenhuma seriedade ou conhecimento de causa. Temos, sim, casos e mais casos de corrupção no governo, nos bancos, na igreja da esquina, nas nossas casas. A corrupção é uma patologia da sociedade. Enquanto nós mesmos não mudarmos nossa postura no dia a dia, nenhuma manifestação ou ditadura oferecerá mudanças efetivas.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Professor: uma nobre profissão que anda fazendo vítimas

Em Rio Claro, um professor agredido por um aluno, repensa sua tarefa de educar e se vale a pena prosseguir nela

No mês passado, o G1 divulgou a notícia de que um professor de Rio Claro, interior de São Paulo, foi agredido por um aluno, com um bloco de concreto e quebrou seu nariz.
Após essa ocorrência, a vítima repensou a respeito da profissão que escolheu, visto que não há nenhuma segurança ao exercê-la, diante da violência ali enfrentada, que o faz ficar totalmente suscetível.
Ao observar que o salário recebido também não justifica esta vulnerabilidade, Walter da Rocha e Silva, o professor rio-clarense agredido,  acabou por anunciar que deixaria o cargo, pois, independente da escola para a qual se transferisse, o problema persistiria.
“Quando tenho aula, já entro na sala com medo. Todos da escola sabem como o garoto é perigoso”, confessa o professor, se referindo ao aluno agressor, de apenas 14 anos.
Antigamente, ser professor era um sacerdócio, um ofício nobre e gratificante.
Ter um professor diante da classe era algo do qual os alunos se orgulhavam, tanto que levavam a maçã de presente, se esforçavam para tirar as melhores notas e queriam a todo custo agradar ao mestre.
Como diz a tradução da música “Ao Mestre com Carinho”, “Para alcançar as estrelas não vai ser fácil mas se eu te pedir você me ensina como descobrir”, muitos alunos agradecidos viam na imagem do professor um ser capaz de ajudá-los a atingir qualquer objetivo e o respeitavam.
Contudo, no final de agosto de 2014, uma pesquisa envolvendo 100 mil docentes em 34 países apontou que 12,5% dos brasileiros são agredidos ou intimidados uma vez por semana dentro do ambiente escolar, o que coloca o Brasil na liderança mundial de agressão a professores.
Beatriz Virgínia Castilho Pinto, atualmente exercendo a profissão de advogada, foi professora de literatura brasileira por muitos anos.
“Nunca sofri nenhum tipo de agressão, nem verbal; talvez seja porque eu sempre lecionei para o ensino médio, em que os alunos já têm uma certa maturidade”, pondera Beatriz, que é uma exceção neste meio.
Mas por que as crianças e jovens de hoje mudaram de comportamento de modo tão drástico, sendo que, com o avanço natural da tecnologia, há tantas facilidades?
Marília Dória Trafane, psicóloga, coloca a visão de que a agressão ao professor não é algo isolado, mas fruto de uma relação violenta que se estabelece entre o corpo discente, entre alunos e professores, entre o sistema educacional e os estudantes ou mesmo entre a escola e a comunidade.
“A escola está inserida numa sociedade que identifica a violência como forma de resolver conflitos”, justifica Marília.
A psicóloga analisa ainda que os conflitos nas instituições de ensino são agravados pela “terceirização” da educação dos estudantes.
“A família, tradicionalmente responsável pela formação moral dos alunos, já não dá conta desse processo”, enfatiza.
A psicóloga analisa que os professores reclamam da falta de respeito dos alunos, que não veem mais neles uma figura de autoridade e, por outro lado, nenhum aluno quer ser professor.
“Se é verdade que se pode constatar a existência de um maior nível de agressividade nas crianças, também o observamos nos jovens e adultos. As crianças tendem a reproduzir os comportamentos observados em suas figuras de referência (pais, professores) e, se virem frequentemente os pais a discutirem entre si ou a reprimirem com agressões verbais e físicas, é natural que também elas adaptem posturas mais agressivas nos diferentes contextos de interação”, esclarece Marília.
A psicóloga aponta outro possível fator para esta mudança de comportamento: as crianças da sociedade ocidental passam um grande número de horas diárias em frente à televisão/computador/ videojogos, atividades que promovem a agressividade.
“É importante que os pais acompanhem e selecionem a programação, ou jogos - de modo a poderem verificar o nível de agressividade contido nos mesmos, e expliquem ou reformulem as situações a que as crianças assistem, ajudando-as, assim, a desenvolver a capacidade de lidar com situações tensas ou agressivas”, sugere a psicóloga.
Marília frisa que os pais que pretendem capacitar seus filhos para a melhor gestão das emoções sabem que não são os brinquedos ou chocolates que irão ajudar os seus filhos, mas sim, a sua atenção, disponibilidade e afeto, bem como firmeza quanto aos limites, explicando o porquê dos princípios, partilhando as suas próprias histórias e sentimentos, transmitindo valores.
“É muito difícil para muitos pais reconhecerem algo negativo na conduta de seus filhos, por isso é importante, quando se detecta o caso de agressão a professores, que eles trabalhem diretamente com a escola para resolver o problema, de forma imediata,  pois a má conduta, se não corrigida, pode crescer como uma bola de neve”, esclarece.
Algumas dicas que Marília deixa são:
1- Investigue as razões do seu filho ser um agressor.
2- Fale com os professores, peça-lhes ajuda e escute todas as críticas sobre seu filho.
3- Aproxime-se mais dos amigos do seu filho e observe que atividades realizam.
4- Estabeleça um canal de comunicação e confiança com seu filho, pois as crianças precisam sentir que seus pais as escutam.
5- Tome cuidado para não culpar aos demais pela má conduta do seu filho.
6- Colabore com o colégio dando seguimento ao caso e registrando as melhoras.
7- Canalize a conduta agressiva de seu filho a algum esporte que ele se identifique.
8 - Deixe claro ao seu filho que a conduta de agressão não é permitida na família e o que ocorrerá se a agressão continuar.
9 - Ensine-o a praticar boas condutas.
10- Não ignore a situação. Mantenha a calma e procure saber como ajudar ao seu filho.
11- Demonstre ao seu filho que continua amando-o tanto quanto antes, mas que desaprova seu comportamento.
12- Estimule-o para que reconheça seu erro e peça perdão à vítima. Elogie suas boas ações.
 A relação escola-família é de suma importância.
Marília finaliza que, para trabalhar o bom convívio do grupo, algumas opções a praticar são orientar os alunos a informar quanto à ocorrência de qualquer comportamento agressivo; não estimular a criança a revidar atitudes agressivas com atos violentos; dialogar com as crianças sobre as noções de certo e errado e proporcionar brincadeiras onde há contato físico.

Por Daniela Prado



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Água, pra que te quero?

Crise hídrica confirma necessidade de discutir a maneira como a água é desperdiçada

Altas temperaturas e falta de chuva ocasionaram uma das piores crises hídricas já vistas. Em São João da Boa Vista o volume de chuvas não era tão baixo desde 1943, segundo a Sabesp. Em janeiro de 2014 a cidade registrou apenas 75 milímetros de chuva, quando a média seria 300 mm. Mas, durante o ano, a Companhia de Abastecimento descartou a possibilidade de racionamento. A justificativa é que a Sabesp continuava tratando a mesma quantidade de água dos últimos meses e a população atual permanece a mesma no período. Os representantes da Companhia afirmaram ainda que só haveria racionamento em caso de desperdício.
Mesmo assim, alguns bairros da cidade foram prejudicados com a falta d’água, entretanto, a Sabesp afirmou que o problema foi causado por excesso de consumo.
Já algumas cidades da região decretaram estado de emergência, como Aguaí, que declarou racionamento em agosto. A cidade também impôs multas de R$ 100,58 para quem fosse pego desperdiçando água.
Tambaú também decretou estado de calamidade pública e ainda solicitou apoio das cidades vizinhas. Houve finais de semana em que a cidade toda ficou sem receber água. A multa também foi aplicada e o valor pode chegar a R$ 600.
O Legislativo estudou a criação de lei que multasse aqueles que desperdiçassem água em São João, a exemplo de das cidades da região. Mas os representantes da Câmara afirmam que seria necessária uma iniciativa do Executivo. “Cogitamos ver se existia a necessidade de desenvolver essa lei que aplica multas. Mas quando se trata de multas cabe ao Executivo fazer uma lei para que a Câmara aprove e, dessa forma, inibir o desperdício”.
Além dessa medida a Sabesp estuda conceder desconto na conta de quem economizar. Isso porque o governador Geraldo Alckmin anunciou que os paulistanos que economizarem 20% da água, terão 48% de desconto, praticamente metade do valor. Mas como a medida é válida somente para a capital, a Companhia ainda analisa formas de incentivar a economia.

'Cidadão, economize água'
Embora as informações veiculadas apontem para uma situação controlada, a falta de água já vinha sendo observado pela Sabesp. Em áudio de uma das reuniões da diretoria da Sabesp que vazou, a presidente da empresa, Dilma Pena, admitiu que a população deveria ter sido comunicada da crise hídrica, para que economizasse água. Mas ela disse que “seus superiores” não permitiram. “A Sabesp tem estado muito pouco na mídia, acho que é um erro. Nós tínhamos que estar na mídia, com os superintendes locais, nas rádios comunitárias todos falando, com um tema repetido, um monopólio: ‘Cidadão, economize água’”.
De acordo com a Organização das Nações Unidas, cada pessoa necessita de 3,3 m³/pessoa/mês (cerca de 110 litros de água por dia para atender as necessidades de consumo e higiene). No entanto, no Brasil, o consumo por pessoa pode chegar a mais de 200 litros/dia.



segunda-feira, 6 de abril de 2015

Censura moderna

Na década de 70, o Regime Militar calou a voz de muita gente mas alguns fatos demonstram que a censura não acabou

Censura tem origem no latim e significa ato ou efeito de censurar, repressão ou reprimenda.
Independente do significado, toda censura traz em si a restrição da liberdade e do conhecimento, algo que, nos anos 60, 70 e início dos 80, foi bastante exercido pela ditadura militar.
Foram muitos os artistas, escritores e jornalistas exilados ou, em casos mais extremos, mortos pelo regime ditatorial, ao tentarem expor suas ideias, sempre levadas para outro lado, distorcidas.
Com a abertura, a Anistia trouxe de volta o irmão do Henfil e tanta gente que partira, acenando, com esperança, a um novo tempo, onde a liberdade de expressão já era possível.
Será que, 30 anos decorridos, esta realidade é a que temos vivido?
Em 31 de junho de 2011, O Estadão trouxe a manchete “Em dois anos, 17 casos de censura judicial no país”, que tratava da proibição, no Estado do Tocantis, de noticiar uma investigação.
A proibição envolvia 84 veículos, entre jornais, revistas, sites, rádios e TVs, os quais ficaram impedidos de transmitir a investigação do Ministério Público a respeito do ex-governador do Estado, Carlos Gaguim (PMDB), num suposto esquema de fraudes e licitações. Detalhe: Gaguim era candidato a reeleição e, mais tarde, ele próprio pediu suspensão da liminar [Confira este e outros casos de censura].
Outro caso recente de censura foi expresso na manchete “Censura estatal e morte de jornalistas ameaçam a liberdade na América Latina”, publicada no jornal O Globo, em 21 de outubro de 2013, A matéria ainda diz: “As ameaças de governantes da região à mídia protagonizaram os debates da 69ª Assembleia Geral da SIP, realizada até terça-feira em Denver, nos Estados Unidos”.
Na ocasião, Jaime Mantilla, presidente da Sociedade Internacional de Imprensa (SIP), declarou que os governos latino-americanos, com a apresentação de um estudo sobre as restrições que a imprensa da Argentina, Equador, Venezuela e Cuba sofreriam, queriam semear ódio e medo [Leia matéria na íntegra].
Em 9 de março deste ano o mesmo site trouxea manchete de que “Relatório aponta a impunidade como principal obstáculo para a imprensa nas Américas”. Um Documento,da Sociedade Interamericana de Imprensa, terá por objetivo permitir a condenação de governantes que atentarem contra a vida – e consequente liberdade de expressão – dos jornalistas e membros da imprensa.
Em suma, um (provável) basta a impunidade.
Ao fazer um balanço dos últimos seis meses, o Relatório levanta que oito jornalistas foram mortos na América do Sul e Central.
Baixou a resolução final para exigir que os governos dos países sejam rigorosos nas investigações do caso, até que os culpados sejam localizados e devidamente punidos, na rigorosidade da Lei. “A censura é a arma utilizada pelos governos de diversas maneiras que representam obstáculos à livre difusão nos veículos de imprensa e nas redes sociais”, é o que consta do documento.
Venezuela, Equador e Argentina estão no rol dos que perseguem e intimidam o jornalismo, fazendo uso de legislações e censura.
O documento também afirma que não se pode permanecer passivo quando se trata do cerceamento de liberdades. “Para nós, a liberdade de imprensa é um princípio, não importa qual seja o regime que a ataque.”


Por Daniela Prado